Post Life Transitions Desempregabilização
Post Life Transitions Desempregabilização

A DESEMPREGABILIZAÇÃO (como e porque o ambiente do trabalho mudou)

Passamos por um período de desempregabilização.

O mundo do trabalho, como as gerações do século passado (o século XX) acostumaram-se a contemplar não existe mais.

Esse mundo foi criado pela Revolução Industrial, que se iniciou no século XVIII e teve o seu apogeu no século XX.

Ela criou o trabalho organizado, as fábricas, os escritórios, a jornada de trabalho das 8 às 17 horas, a aglomeração das pessoas todas juntas para trabalhar nas oficinas e nas fábricas, as cidades, os meios de transporte de massa, capazes de movimentar milhões de pessoas em períodos curtos, no início e final de cada dia, a rede de serviços para suportar esses contingentes agrupados num só local, como restaurantes, agências bancárias, saúde e medicina, lavanderias, shopping centers, bares etc.

Ao final do século XX iniciou-se a Revolução da Informação.

Entrou-se numa nova era; transitamos num período de passagem de um para outro mundo, no qual os paradigmas serão outros, caracterizado pela desempregabilização da sociedade.

Salvo algumas exceções, como é o caso da manufatura de produtos básicos, amadurecidos e de baixa evolução tecnológica, exemplificados pela siderurgia, indústrias de cimento e química de base, não existe mais o emprego estável, para fazer carreira ao longo da vida.

Os fatores

A desempregabilização existe, impulsionada por três fatores:

  •  Cada vez mais o trabalho envolve o processamento do conhecimento ao invés da manipulação de coisas.
    Mesmo nas empresas que tradicionalmente estiveram no fulcro da economia industrial, como é o caso da indústria automotiva, a maioria dos trabalhadores realiza o “trabalho do conhecimento” e não a manufatura.
    Inúmeras áreas de atuação, tais como: marketing, engenharia de produtos ou processos, pesquisa e desenvolvimento, finanças, administração de recursos humanos, tecnologia da informação, procurement e distribuição são dominadas pelo trabalho do conhecimento.
  •  Mais ainda, quando nos referimos ao trabalho do conhecimento, torna-se cada vez mais difícil parcelá-lo, delimitando-o a diferentes cargos ou funções; há uma continuidade natural nas atividades.
    Quando uma pessoa é contratada para executar um trabalho (situação típica da Era Industrial) é possível definir de maneira bem precisa os limites das atribuições dela.
    O mesmo não se aplica ao lidar com informações e com o conhecimento. Menos ainda quando o propósito não for o de executar uma tarefa específica, mas de realizar algo ou de atingir um objetivo (situação típica da Era do Conhecimento).
    Isto afeta toda a conceituação das tradicionais estruturas de cargos e salários.
  •  Outro fator causador da desempregabilização é a digitalização da tecnologia da informação e das comunicações.
    O trabalho do conhecimento não seria possível sem o suporte de computadores pessoais, tablets, celulares, modems, vias de alta velocidade, fibras óticas etc.

Nova tecnologia

A Era Industrial concentrou as pessoas no tempo (horário fixo de trabalho) e no espaço (fábricas e escritórios).

A nova tecnologia digital e a consequente convergência de dados, voz e imagens num só aplicativo, com a revolução das telecomunicações, dispersa as pessoas, permitindo que as mesmas trabalhem em qualquer local a qualquer hora.

A tecnologia acelerou também a velocidade das mudanças e da inovação, fazendo com que nenhuma estrutura de organização e de divisão do trabalho dure tanto quanto antes o fazia.

Novos produtos seguem-se aos existentes de forma tão rápida que a organização deve ser constantemente refeita e alterada.

As antigas práticas de definir cargos e de integrar funções apresenta rigidez e resistência à mudança incompatíveis com a dinâmica do mundo atual.

Essa mesma tecnologia viabilizou também a globalização, trazendo novos patamares de competição, abreviando a introdução e disseminação de novos produtos e impulsionando ainda mais o ritmo da inovação.

Flexibilizando

  •  A velocidade das mudanças originou a busca de nova arquitetura organizacional, que possua a flexibilidade necessária para acompanhar o ritmo da inovação.
    Cargos, definidos e delimitados, conforme criados pela Era Industrial, são o grande obstáculo para que se consiga a flexibilidade requerida.
  •  A nova estrutura deve ser capaz de adaptar-se dinamicamente à medida em que a tecnologia, a competição, os conhecimentos e habilidades e o ambiente de negócios mude.
    Uma das boas alternativas é o trabalho com times multidisciplinares. Outra, é a aquisição de qualificações e de competências específicas para a realização do trabalho do conhecimento, através da compra de
    serviços de terceiros, consultores e especialistas, nos momentos de mudança.
  •  Por último, há a mudança do enfoque do emprego do conceito de “execute o seu trabalho” para o de “faça o que tiver de ser feito para
    atingir a meta”.
    Isto levou à criação de novas atitudes, à delegação de novas responsabilidades e à introdução de novas práticas e políticas, tais como:

    •   Assegurar qualidade internacional para o produto ou o serviço (Qualidade Total)
    • Empolgar o cliente (Serviço ao Cliente, CRM)
    • Resolver problemas (empowerment)
    • Decidir o que tem que ser feito (auto-gerenciamento)
    • Criar processos eficientes e eficazes (reengenharia)
    • Ser capaz de realizar múltiplas tarefas (cross-training)

Cada uma dessas iniciativas foi tomada tendo em vista alcançar objetivos que todos reconhecem serem importantes; contudo, elas estão erodindo a essência do emprego tradicional, que é caracterizado pela clara definição de funções e de atribuições.

A desempregabilização

Cada vez mais empresas terceirizam serviços, contratam temporários e consultores.

Não se trata de um movimento para redução de custos, mas de criar organizações flexíveis o suficiente para acompanhar as mudanças.

As grandes restrições ao emprego tradicional são:

  • Empregos e a cultura do emprego incentivam as pessoas a “executar o seu trabalho” ao invés de “fazer o que necessita ser feito”.
    Quando ocorre uma necessidade fora dos limites da definição do cargo, a tendência da pessoa é a de adotar a atitude de “isso não é minha responsabilidade”.
  • As estruturas de empregos e a cultura do emprego estimulam a admissão de novos funcionários.
    Quando mudanças criam novas tarefas, há a tendências de criar novos cargos para executá-las e contratar pessoas para ocupá-los.
    Nesses momentos, todos “provam” que estão sobrecarregados e que não têm condições de absorver as novas atividades. Afinal, o tempo requerido para executar um trabalho é exatamente igual ao tempo disponível para fazê-lo!
  •  Empregos e sua cultura obscurecem a visão dos objetivos finais a serem alcançados pela organização.
    Pessoas param de pensar na sua contribuição para os resultados e passam a balizar-se pela realização daquilo para o que foram contratadas.
  •  Mais ainda, empregos tornam-se fonte de identidade das pessoas.
    Pessoas respondem quem são referindo-se às suas atividades (“Eu sou
    contador, vendedor, operador de computador, nutricionista, gerente de vendas” etc.).
    Para essas pessoas, o emprego tornou-se uma referência tão marcante em suas vidas, que elas resistem e reagem contra qualquer iniciativa de mudança.
    Em tempos de desagregação social, como vivemos, agarrar-se ao emprego é parte da busca desesperada de uma referência de vida.
    Com isso, a estrutura do emprego torna-se um obstáculo à mudança e à flexibilidade, fatores estes essenciais na vida atual das organizações.

Ewaldo Endler (in memoriam)

Este artigo foi escrito por Ewaldo Endler (in memoriam), idealizador do Life Transitions. Com mais de 50 anos de atuação em Recursos Humanos e desenvolvimento de pessoas, deixou um importante legado de conhecimento e reflexão que continua inspirando pessoas em suas jornadas de transformação.